sexta-feira, 26 de maio de 2017

"Árvore com olhos" e a jovem exploradora chinesa

As árvores com "olhos"
Por Levi Jucá.

O espírito investigativo do Jovem Explorador esteve mais presente do que nunca durante a nossa estadia na China, em dezembro de 2016. A viagem, em si, já significava uma experiência incrível. Saímos de Pacoti até o outro lado do mundo para participar da Be The Change (BTC), conferência do movimento global Design For Change que, no Brasil, é representado pelo Criativos da Escola (Instituto Alana – SP), cujo Desafio conquistamos em 2015. Além da grande oportunidade de compartilhar nosso projeto junto a crianças, jovens e educadores critativos de todo o mundo, nada passava despercebido de nossa curiosidade multiplicada pelo choque cultural que experimentamos a cada instante daqueles dias inesquecíveis.

Ao chegarmos na Daystar Academy, escola que sediou o evento em Pequim (Beijing), as árvores que circundavam seus muros chamavam bastante a atenção. Não pelo verde das folhas, inexistente naquele período de inverno abaixo de zero (- 3º C), mas pelo aspecto curioso dos caules finos, esbranquiçados e, com olhos! Sim! Marcas escuras (de galhos já caídos) cujos desenhos, sem exceção, simulam olhos humanos. Nos dias seguintes, em passeios pela cidade, notamos que essa espécie era muito utilizada na arborização urbana, reinando com larga vantagem nas calçadas, canteiros, praças e bosques.

Muitos "olhares" no entorno da escola e em toda Pequim.
Desde então não esperei por sair perguntando qual o nome daquela planta aos organizadores do evento, estudantes e, principalmente, para o nosso intérprete (que era chinês!). E, para minha surpresa, ninguém sabia responder. Faziam cara de dúvida, olhavam e respondiam algo assim: “Como eu não sei disso?!”. Qualquer semelhança com o que também ocorre por aqui não seria mera coincidência. Afinal, tudo o que nos parece comum, aquilo que com que nos deparamos rotineiramente, não desperta importância, nosso olhar. É exatamente para esse fato que alertamos e discutimos no curso das atividades de pesquisa do Ecomuseu.


Foi por tudo isso que, três dias depois, tive uma ideia para resolver o caso. Convoquei uma chinesa para ser jovem exploradora por um dia, desafiando-a a descobrir não apenas o nome da árvore (científico e popular), mas sua história (algo me dizia que aqueles olhos guardavam uma lenda, mito...). A escolhida foi a simpática Wei Yun (fala-se “Uêi Ouâm”), acadêmica de língua inglesa e orientadora voluntária responsável por nossa delegação brasileira.  Ela topou responder um questionário que elaborei em inglês sobre a planta misteriosa e foi à campo pesquisar!

"The Challenge" sobre o mistério da Árvore com Olhos!

Transcrevo e traduzo, a seguir, o que ela me devolveu ao final do dia:

Nome Popular:  桦树 (Baihua Shu = bétula ou vidoeiro branco)
Nome Científico: Betula platyphylla
História:  na antiga China, havia uma menina que estava sempre à procura de um amante. Depois que ela morreu, ela tornou-se uma árvore com os olhos para continuar a procurar seu amante para sempre. A Bétula é a árvore nacional da Rússia, representando o espírito nacional de vitalidade.

Wei Yun, a jovem exploradora chinesa que aceitou o desafio!
Resolvido o problema, procuramos saber mais. Coincidentemente, uma variação de seu nome científico seria Betula pendula, cujo termo de “espécie” é o mesmo de Parkia pendula, nosso visgueiro, símbolo do Ecomuseu de Pacoti. Também conhecida como bétula branca japonesa ou bétula de prata da Sibéria, pode ser encontrada em outros lugares temperados da Ásia como Japão, Coréia e Sibéria, alcançando entre 20 a 30 metros de altura. Sua casca é amplamente comercializada para fins medicinais (desintoxicação, antitussivo, diarréia aguda e crônica, asma, etc.), nas práticas tradicionais do Oriente.


A exemplo da velha lenda, estamos sempre em busca: pelo amor ao conhecimento! Provando que somos jovens exploradores (e educadores) aqui e até na China, registramos a sensível experiência de se deixar levar, literalmente, pelo misterioso olhar de uma árvore...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Ecomuseu de Pacoti: em vista acervo inédito sobre a Serra de Baturité e o Ceará do século XIX.


Você já imaginou ver fotografias da Serra de Baturité produzidas no século XIX?
Projeto de pesquisa em patrimônio cultural de ciência e tecnologia faz parceria com o Ecomuseu de Pacoti para a recuperação de documentos inéditos envolvendo a Serra de Baturité - CE. Manuscritos e fotografias produzidas pelo botânico suíço Jacques Huber que esteve na região em 1897.

Dezembro/2016.

Jovens Exploradores de Pacoti vão refazer os passos de Jacques Huber

O Museu de Astronomia e Ciências Afins - MAST, instituto de pesquisas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação realizou, entre 05 e 08 de dezembro de 2016, o IV Seminário Internacional Cultura Material e Patrimônio de Ciência e Tecnologia (IVSPCT), na cidade do Rio de Janeiro - RJ. O evento foi aberto a todos aqueles interessados na preservação, documentação e uso do patrimônio cultural de Ciência e Tecnologia / C&T.

No curso da programação, o projeto "Jovem Explorador e o Ecomuseu de Pacoti" foi apresentado na fala do Prof. Dr. Nelson Sanjad (Museu Goeldi - Pará), participante da Mesa Redonda do dia 08 de dezembro, cujo tema era "Museus e a Preservação do Patrimônio de C&T", juntamente a Marcio Rangel (MAST), Aline Rocha de Souza F. de Castro (Museu da Geodiversidade/UFRJ) e Maria Esther Valente (MAST).

Mesa Redonda "Museus e a Preservação do Patrimônio de C&T"
Foto: Cortesia do Museu de Astronomia e Ciências Afins/MCTIC.

Tratando de sua pesquisa sobre a vida e a obra do botânico suíço Jacques Huber (1867-1914), Sanjad relatou a vinda do cientista à região da Serra de Baturité, na qual realizou estudos, coletas e registros fotográficos no século XIX. O pesquisador conheceu a proposta do Ecomuseu de Pacoti durante sua participação no Congresso de História da Educação do Ceará (UFC), em setembro de 2016, em Fortaleza - CE.

No final da apresentação, foi apresentado um dos desdobramentos do projeto de pesquisa e documentação em curso no Museu Goeldi, desenvolvido em parceria com o Ecomuseu de Pacoti, sob a orientação do Prof. Levi Jucá. Esse subprojeto tem por finalidade o estudo, acondicionamento, digitalização, transcrição e tradução de documentos relacionados com uma expedição que Jacques Huber realizou ao estado do Ceará em setembro e outubro de 1897. O legado dessa expedição reúne um diário, um caderno de campo, cerca de 50 fotografias, além de uma coleção botânica, atualmente preservada no Museu Goeldi, no Jardim Botânico de Genebra, na Universidade de Montpellier e no Museu Nacional de História Natural de Paris.

Nelson Sanjad
Foto: Cortesia do Museu de Astronomia e Ciências Afins/MCTIC.

O projeto Jovem Explorador, que concebeu a proposta do Ecomuseu, foi inspirado Imperial Comissão Científica, chefiada pelo botânico Freire Alemão, que veio ao Ceará em 1859. E, por isso, tem por objetivos principais incentivar a iniciação científica de jovens estudantes, assim como divulgar o patrimônio cultural e natural. Assim, é intenção da parceria divulgar esse material por meio de publicações e ações educativas envolvendo Pacoti, Guaramiranga e toda a região serrana e sertaneja, na qual Huber esteve em trabalhos de campo.

Jacques Huber
Saiba mais sobre a pesquisa:

De Basileia a Belém: a carreira transnacional do botânico Jacques Huber (1867-1914)
Por Nelson Sanjad

O botânico suíço Jacques Huber é amplamente reconhecido como pioneiro da pesquisa tropical. Sua obra abrange a taxonomia, biogeografia, ecologia e agronomia. Antes de migrar para Belém, estado do Pará, em 1895, Huber estudou na Basileia (1884-1889) e trabalhou em Montpellier (1889-1893) e Genebra (1893-1895). Em sua pesquisa, ele mudou dos estudos sobre algas e liquens mediterrâneos e alpinos, que desenvolveu na Europa, para plantas amazônicas, especialmente árvores frutíferas, madeireiras e gomíferas - e suas associações. Embora ele tenha mudado seus objetos de investigação devido a demandas políticas, a abordagem teórica de Huber permaneceu a mesma, fortemente ligada à fitogeografia e sociologia vegetal que se desenvolveram na Basileia, Montpellier e Genebra nas últimas décadas do século XIX.

A excepcional produção científica de Huber - incluindo uma extensa obra fotográfica - apresenta, em essência, o primeiro olhar ecológico sobre a floresta amazônica. Isso atraiu a atenção de cientistas de todo o mundo e resultou em uma ampla correspondência c om colegas das Américas, Europa e Ásia sobre a Amazônia, sua biodiversidade, processos ecológicos, economia e representações iconográficas. Nesse sentido, a carreira transnacional de Huber e sua obra multi-dimensional, a qual combina diferentes objetos de investigação, ciência e arte, projetos de pesquisa e desenvolvimento, podem contribuir para a discussão sobre complexos assuntos relacionados com a interface entre ciência local e global, com a circulação e tradução de conhecimentos nativos e científicos, e com a relação entre ciência e política em contextos locais, nacionais e internacionais.

sábado, 8 de outubro de 2016

A importância do "mateiro": José Alves Carneiro!


José Alves Carneiro, ou simplesmente "Zé Carneiro" é o mais dedicado dos jovens exploradores! Pai dos estudantes Viviane e Luís, vem contribuindo com o mapeamento das trilhas e reconhecimento das espécies durante as atividades do projeto.  "Não existe saber mais ou saber menos: há saberes diferentes", e o nosso prezado mateiro nos fez encontrar o elo entre o saber cientifico e o tradicional.




Por Levi Jucá.


Ante os desafios sociais do presente, faz-se indispensável conhecer e compreender nossas raízes a partir da relação humana entre o patrimônio cultural e o natural, na busca de um desenvolvimento sustentável que parte da comunidade ao planeta. Nos últimos anos, o Ceará é um dos estados com o maior índice de desmatamento do país e, por tudo isso, urge resgatar o equilíbrio dessa relação de usos, e abusos, do homem para com o meio. Esta união entre os saberes antepassados de utilidades da natureza e o abandono de hábitos predatórios encontramos na prática do mateiro.

Sobrevivendo como oásis ameno e verde em pleno sertão cearense, a Serra de Baturité é, em todos os sentidos, um espaço geográfico peculiar nos seus aspectos históricos e ambientais. Sobre essa montanha, na aprazível Pacoti, nasceu José Alves Carneiro que, como muitos de sua geração, conheceu desde muito cedo a mata para dela explorar madeiros, desnudando a terra em coivaras para o plantio e caçando bichos para alimento ou por diversão.

Zé Carneiro e os frutos do Jaracatiá (Jacaratia  spinosa)

Ainda na juventude tornou-se um grande conhecedor do território baturiteense e somente ao viver uma experiência mística, na qual acreditou ser perseguido por protetores da floresta depois de abater um considerável número de aves, prometeu a si mesmo não mais levar adiante a rotina de destruição.

Zé Carneiro, como é conhecido, passou a ser muito mais que um mateiro, pois além de embrenhar-se nas matas sem auxílio de bússola, conhecer as propriedades medicinais das plantas ou o canto dos pássaros, sabe, como ninguém, fazer-nos experimentar as belezas e as sutilezas que o ambiente natural e rural nos reserva, encantando aqueles que o acompanham ou ouvem de seus ensinamentos botânicos, zoológicos e, essencialmente, culturais do seu vasto conhecimento em linguagem simples de quem pouco estudou, mas que repassa incansavelmente às novas gerações a importância da preservação, objetivo maior de sua missão.

Zé Carneiro e o velho Visgueiro (Parkia pendula)

Seu trabalho também passou a colaborar com inúmeros cientistas que o procuram para orientar suas pesquisas de campo, guiando e coletando, fazendo nascer uma fecunda troca de conhecimentos técnicos e tradicionais. Passou a contribuir na descoberta de novas espécies animais, batizadas de “baturitensis” e a chamar atenção para as matas nativas e suas árvores seculares, como os raros visgueiros e jaracatiás.

Como verdadeiro intérprete da natureza no saber e no fazer que transformam costumes, o mestre-guia Zé Carneiro é, para o Ceará ou para o mundo, um tesouro vivo, tanto quanto a mãe natureza à qual nos conclama a cuidar, nosso maior bem!

Breve Currículo de José Alves Carneiro
ATUAÇÕES (1992-2015):

1) Agricultura: desde os 08 anos de idade, tem prática no plantio de cereais, em especial, no cultivo do café sombreado, também denominado florestal, lida em fábricas de engenho e casas-de-farinha, assim como no cultivo de colmeias e cortiços de abelhas indígenas sem ferrão, na zona rural de Pacoti – CE.
2) Mateiro e Guia: atividade na maior parte das vezes informal e voluntária, recebe grupos de estudantes e público em geral, seja da comunidade local ou público turista, para percursos de contemplação da natureza e lazer, como banhos de cachoeira. Orienta o mapeamento de trilhas e reconhece as espécies da flora e da fauna da região. Participa de eventos ambientais escolares e demais instituições, convidado por seus conhecimentos sobre a mata serrana.
3) Ajudante de Campo em pesquisas acadêmicas de alunos e/ou docentes oriundos da Universidade Federal do Ceará – UFC e Universidade Estadual do Ceará – UECE, no campo das Ciências Naturais e Biologia, colaborando na coleta, preparação de material botânico e descoberta de novas espécies animais endêmicas.
4) Mestre-guia (Intérprete da Natureza) do Projeto Jovem Explorador e Ecomuseu de Pacoti: primeiro cargo em que repassa os seus saberes aos jovens através da experiência mútua de contato com a natureza, pelo qual exerce a atividade voluntária de orientação em pesquisas do patrimônio natural e cultural da região, guiamento de trilhas ecoculturais e palestras em educação ambiental, desde agosto de 2014.


Ficou com vontade de fazer uma trilha na Serra de Baturité na companhia de Seu Zé Carneiro? Entre em contato conosco!

domingo, 21 de agosto de 2016

Jovem Explorador vai pra China!

Aqui no Ceará, e talvez noutros pontos do Brasil, há uma antiga expressão popular que evocamos quando queremos que alguém vá embora, nos deixe em paz, pare de irritar: "Vai pra China, fulano!" Desta vez, realizaremos o pedido! Mas por um bom motivo!

Jovens Exploradores representam o Design For Change Brasil no vídeo de
campanha da Be the Change Conference 2016. Sim, nós podemos!

Por Criativos da Escola (http://criativosdaescola.com.br/criativos-na-china/)

Duas das cinco escolas selecionadas na 1ª edição do Desafio Criativos da Escola, representarão o Brasil, pela primeira vez, na ‘Be the Change Conference’, conferência mundial do Design for Change, que esse ano acontece em Pequim, na China. O encontro reunirá, em dezembro, centenas de crianças e jovens que desenvolvem projetos de protagonismo social ao redor do mundo. Nesta edição haverá a participação de uma aluna do Colégio Estadual Hermes Miranda do Val, de Simões Filho, na Bahia, e de uma jovem da Escola Menezes Pimentel, de Pacoti, no Ceará – ambas acompanhadas pelos educadores responsáveis pelos projetos.

A turma que representou o projeto no Desafio Criativos da Escola em dezembro de 2015. Exatamente um ano depois, a aluna Conceição Soares, 17, e o professor Levi Jucá, representarão o projeto Jovem Explorador e o Ecomuseu, de Pacoti-CE.

A conferência é organizada e promovida anualmente pelo movimento global Design for Change, presente em 35 países e que, no Brasil, é representado pelo Instituto Alana por meio do Criativos da Escola. Para dividir suas experiências, além de participar de oficinas, workshops e atividades culturais, a aluna da Bahia contará o caso do Grupo de Apoios e Conselhos (GAC), criado para reduzir os furtos dentro da escola e combater o clima de desconfiança entre os estudantes. Após a criação do grupo, o número de ocorrências escolares foi zerado e os alunos criaram um vínculo de empatia entre si, modificando por completo a convivência no ambiente escolar.

Já os estudantes do Ceará garantiram o reconhecimento de seu trabalho ao construírem o primeiro Ecomuseu da cidade, que armazena riquezas da Mata Atlântica em pleno sertão cearense. Com a ajuda de um engenheiro da comunidade, os alunos conseguiram a doação de um terreno e recursos para viabilizar a construção do museu.

As inscrições para a segunda edição do Desafio Criativos da Escola já estão abertas e, neste ano, a premiação reconhecerá 10 iniciativas em todo o país. Os interessados podem enviar não apenas projetos já finalizados como também aqueles que ainda estiverem em andamento até o dia 15 de outubro de 2016 pelo site do Criativos da Escola. Esta segunda edição do prêmio tem como parceiro o programa Parceria Votorantim pela Educação, desenvolvido pelo Instituto Votorantim.

Sobre o Instituto Alana 

O Instituto Alana é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que aposta em projetos que buscam a garantia de condições para a vivência plena da infância. Criado em 1994, o Instituto conta hoje com projetos próprios e com parceiros e é mantido pelos rendimentos de um fundo patrimonial desde 2013. Tem como missão “honrar a criança”.

Você conhece um projeto protagonizado por crianças e jovens que está transformando a escola e a comunidade?
Inscreva-o no Desafio Criativos da Escola e veja sua história ganhar o mundo!

sábado, 7 de maio de 2016

Na "Trilha das Abelhas": Meliponário do Sr. Antonio Martins

A narrativa a seguir foi escrita pelas estudantes Kamila Vitória e Samara Paula, ex-alunas da EEM Menezes Pimentel, residentes em Guaramiranga - CE. 
  

Por Kamila Lopes e Samara Paula.


No dia 13 de junho de 2015, os Jovens Exploradores foram para mais uma missão: conhecer o universo criativo e inteligente das abelhas. Ficamos à espera do resto do grupo que partiu de Pacoti e vinha caminhando por uma estrada mais curta que dá acesso ao Sitio Bananal, onde iríamos visitar a residência do meliponicultor Antônio Martins.


Ao entrarmos em sua casa percebemos seu imenso carinho com as abelhas. Ele não tem filhos e deposita todo o seu amor e atenção à elas, chamando- as carinhosamente de “filhas”. Ele as cria desde os seus 15 anos, herança de seu pai e de seu avô. Hoje, aos 70 anos, possui nove espécies de abelhas nativas, entre elas: Camuengo, Jati, Canudo, Uruçu (amarela, cinzenta...) ou Tiúba (maior abelha sem ferrão do Brasil), Mombuca (abelha mais rara, com mel muito valioso), dentre outras.

Potes de Mel e Pólen - Abelha Uruçu-Amarela

Meliponário do Seu Antonio Martins - Sítio Bananal - Guaramiranga
O Sr. Antônio Martins também nos contou várias histórias e os processos de seu trabalho, que vai desde a formação de uma colmeia, até a pasteurização do mel. Ao final de nossa visita, levamos em nossa bagagem, além de uma nova parceria para o projeto, a responsabilidade de cuidarmos desses seres que tem uma grande importância para o nosso planeta!


Uma curiosidade: a vida e o amor de Seu Antonio Martins pelas abelhas foi tema de um documentário produzido pelo projeto “Revelando os Brasis” em 2011. Trata-se de uma iniciativa do Ministério da Cultura e do Instituto Marlin Azul para democratizar o acesso ao mundo audiovisual em cidades brasileiras com até 20 mil habitantes.

video

A história do meliponicultor foi inscrita por Carmem Silvia Ferreira, artesã, arte-educadora e moradora de Guaramiranga. Daí nasceu o documentário “O Porquê das Coisas”, que conta a história de Antonio Martins, que se dedica à criação de abelhas e ao cultivo do roçado e sempre encontra soluções simples e criativas para os desafios de seu cotidiano. Acima, um trecho do referido documentário (Divulgação: Instituto Marlin Azul. Todos os Direitos Reservados).

sábado, 9 de abril de 2016

Doce Natureza: Na Trilha das Abelhas Nativas

A narrativa a seguir foi escrita pelo professor Levi Jucá, licenciado em História pela Universidade Federal do Ceará - UFC e coordenador do projeto Jovem Explorador e o Ecomuseu, em Pacoti - Ceará.

"Se as abelhas desaparecerem da face da terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência. sem abelhas não há polinização, não há reprodução da flora, sem flora não há animais, sem animais não haverá raça humana". (Albert Einstein)

Abelhas "Canudo" (Scaptotrigona depilis), visitando a flor do maracujá!
Meliponário da Vila São João - Pacoti - CE

Por Levi Jucá.
26 de Março de 2016.
Preocupada com o atual quadro de desaparecimento gradativo das abelhas no mundo por diversos fatores (desmatamento, agrotóxicos, plantações de transgênicos, etc.), a Seção Zoológica da Comissão Científica do Jovem Explorador começou a pensar possíveis ações para a discussão e promoção desse tema junto à comunidade. Em postagens nas redes sociais, temos alertado para a importância desses seres fundamentais para a manutenção da vegetação natural e cultivada, através da polinização. No entanto, a maioria da população desconhece a existência e o valor das nossas abelhas "nativas", "brasileiras", "indígenas" ou "sem-ferrão" (Gêneros: Melipona, Trigona...).

Uruçu-amarela (Melipona mondury) e seus "potes de mel".
Meliponário do Laécio - Sítio Rolador - Pacoti - CE

Essas "nossas abelhas" são bem diferentes das abelhas exóticas, isto é, estrangeiras, como é o caso da abelha "italiana" (Apis mellifera) trazida da Europa no século XVIII por padres jesuítas que visavam a produção de cera para o fabrico de velas! Resistentes, hoje estão espalhadas por todo o Brasil, inclusive impactando sobre a vida das nativas. São as mais conhecidas da apicultura, pela grande produtividade de mel (o que mais se consome comercialmente), e as mais temidas pelo seu "ferrão". De certa forma, contribuem para o "preconceito" de muita gente acerca do tema, achando que lidar com abelhas é tarefa arriscada, esquecendo que as espécies brasileiras não possuem ferrão, ou melhor, são atrofiados.


Meliponário do Sr. Antonio Martins
Sítio Bananal - Pernambuquinho - Guaramiranga - CE

Em grande parte inofensivas, há muito são domesticadas em caixotes ou cortiços naturais geralmente nos beirais dos telhados das casas de serra e sertão, podendo ser criadas, até mesmo, em grandes cidades! Meu primeiro contato com essas abelhas se deu em 2008, quando morei na Vila São João, residência de grandes amigos em Pacoti, construída em 1932 e com linda fachada neoclássica. Lá, penduradas nos alpendres, estão as colmeias que compõem seu meliponário.

Prof. Levi Jucá e jovem exploradora Josemara Barbosa -
Fachada Neoclássica da Vila São João - Pacoti - CE.

Colmeias / Cortiços Tradicionais - Vila S. João - Pacoti - CE.

O Brasil possui mais de 3.000 espécies de abelhas, sendo boa parte de abelhas nativas sem ferrão. Os nomes são muitos: URUÇU, CANUDO, JANDAÍRA, JATÍ, LIMÃO, IRAÍ, MANDAÇAIA MOSQUITO, JATAÍ, ARAPUÁ, MOÇA-BRANCA, CAGA-FOGO, MOMBUCÃO, e tantas outras... Quem não lembra o trecho da canção Morena Tropicana, de Alceu Valença, que diz: "Saliva doce, doce mel, mel de uruçu"? Um mel bem clarinho e fininho por ser mais aquoso. Comprovadamente mais eficiente em termos medicinais por suas propriedades antibióticas, segundo aponta o livro "Vida e criação das abelhas indígenas sem-ferrão", ideal para quem quer entender melhor o assunto, da autoria de Paulo Nogueira-Neto. Para baixar o livro, gratuitamente, clique aqui.

Meliponário do Laécio - Sítio Rolador - Pacoti - CE

O primeiro passo desse trabalho liderado pelo Jovem Explorador e o Ecomuseu vem sendo o reconhecimento e estudo sobre as espécies nativas que ocorrem na região da Serra de Baturité - CE, assim como a realização de um mapeamento dos "meliponicultores" que herdaram a tradição de criar abelhas em casa, em cortiços e colmeias tradicionais. No último 26 de março, na sede do Ecomuseu de Pacoti, inserida no espaço do Campus Experimental de Educação Ambiental e Ecologia da Universidade Estadual do Ceará - UECE, nossa grande parceira, recebemos com alegria e gratidão a visita do grande mestre Luiz Wilson Lima-Verde.

Visita de Lima-Verde ao Ecomuseu de Pacoti - CE.

Engenheiro agrônomo da Universidade Federal do Ceará - UFC, botânico taxonomista, Lima-Verde também é Doutor em Zootecnia (UFC) com a tese intitulada "RECURSOS MELISSOFAUNÍSTICOS DO MACIÇO DE BATURITÉ, CEARÁ, BRASIL – DIVERSIDADE E
POTENCIALIDADE ZOOTÉCNICA". Ninguém mais indicado, pois, para tratar de abelhas conosco, em especial aquelas existentes em nosso território, durante uma manhã de formação.

Lima-Verde apresentando colmeia racional
modelo INPA.

Após essa aula incrível, fomos presenteados por Lima-Verde com as primeiras colmeias em modelo racional moderno (modelo INPA - Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia) que em breve implantaremos na área externa do Ecomuseu de Pacoti, pela defesa de uma "natureza doce", saudável e equilibrada!

Jovens Exploradores no Meliponário do Sr. Antonio Martins.
Cultive uma colmeia de abelhas nativas sem ferrão em seu jardim! Mas, como todo animal silvestre, é preciso respeitar sua biologia, entender suas necessidades e a legislação. Só assim podemos admirar e preservar estes maravilhosos polinizadores!

quinta-feira, 31 de março de 2016

Trilha da Memória na Igreja Matriz de Pacoti - CE

A narrativa a seguir foi escrita pelo jovem explorador Lucas Ferreira Lima, aluno do 2º ano do ensino médio da Escola de Ensino Médio Menezes Pimentel, Pacoti - Ceará.

A "trilha da memória" percorre os monumentos que integram o Ecomuseu de Pacoti!
(Igreja Matriz e o Antigo Cruzeiro em 1950. Acervo: IBGE).

Por Lucas Ferreira.
16 de março de 2016.    

       Estou há pouco tempo no projeto e tive a sorte de participar de uma trilha da memória pela cidade de Pacoti. Decidimos que a Igreja Matriz seria o marco inicial de nossa excursão, afinal ela significou um dos principais fatores para emancipação de Pacoti, já que na antiga legislação imperial o principal critério era a povoação ser sede de Freguesia (Paróquia). A Paróquia de Pacoti foi criada em 1885. Logo de início então tivemos a certeza que essa não seria uma "aula" limitada à questão religiosa! Atualmente, a Matriz é tombada como patrimônio cultural por lei municipal de 2002 e é um dos principais pontos turísticos do centro histórico de nossa pequena cidade. Sua padroeira é Nossa Senhora da Imaculada Conceição.



Nenhum detalhe passou despercebido, do entorno ao interior do templo!
    
     Ao chegarmos à frente do templo, o professor Levi Jucá tomou o papel de "guia" e nos instigou a observar os elementos que compunham a fachada da igreja, depois revelou o nome técnico e arquitetônico, assim como o significado simbólico de cada um. Ao adentrarmos na igreja, deparamo-nos com pequenas obras de reforma (mudança de pastilhas das paredes por cerâmica moderna), mas nada que atrapalhasse a nossa passagem. Assim, fomos descobrindo que sua estrutura foi mudada inúmeras vezes desde a capela primitiva e que uma das poucas coisas originais é a estátua do Cristo Crucificado, que se for olhada de perto tem a inscrição da doação dos antigos missionários lazaristas. Percebemos também que mesmo a cruz onde ele está é desproporcional ao seu tamanho, já que a cruz original era de madeira e foi substituída pelo fato de se desgastar ao passar dos anos.

Entre frisos, cornijas, frontão, colunetas:
O "vaso com palmas" que simboliza a vitória do Cristo Ressuscitado!
      
     Subindo a escadaria de madeira, nos dirigimos ao campanário (torre da campana, ou sino), e para chegar até lá passamos pelo antigo Coro (piso superior em que ficavam o coral e o organista). Ao chegar ao sinos o professor contou que o antigo sino da igreja era pequeno e se localizava na velha "torre" central da igreja (hoje inexistente), e quando foi substituído pelos dois que agora estavam, foi utilizado como almofariz (pequeno pilão de cozinha) por uma senhora que trabalhava na paróquia. Com uma trena métrica, mensuramos a altura e o diâmetro dos sinos, para descobrir o peso e a nota musical que reproduziam, fiquei espantado quando descobrimos que juntos os sinos pesavam 200kg e eles ficavam pendurados em um pedaço de madeira. O maior deles, fabricado em São Paulo pela Grande Fundição do italiano Ângelo Angeli, é datado de 1928, pesa 150kg e emite a nota RÉ SUSTENIDO.
Conferindo as medidas do grande sino.

    Vimos também que em ambas as laterais (ou naves colaterais) estendiam-se, no passado, passarelas de madeira nesse mesmo piso superior, chamadas de "tribunas" (hoje inexistentes, mas nas paredes ainda vemos marcas das linhas de sua estrutura). Era o local onde anteriormente a alta sociedade (ou grandes benfeitores da igreja) assistia as missas, em que eles não se misturava com a plebe situada abaixo na nave central. As tribunas foram removidas, mas as marcas das madeiras ainda ficaram nas paredes.


Nave Central e Altar-Mor, vistos do Coro superior


    Ao final da trilha o professor nos contou um pouco da história de padre Kiliano, e a homenagem que ele recebeu ao ser sepultado dentro da igreja que ele tanto ajudou sendo pároco por quase cinco décadas. Outra pessoa também foi enterrada ali, ao lado do altar-mor. Chamava-se Antonia Candida de Assis, falecida em 1917, benfeitora da Matriz. Esse era um velho costume, o de sepultar pessoas no interior das igrejas e que caiu em desuso com o advento dos padrões de higiene a partir da construção dos cemitérios distantes dos centros.

Juntos do busto do Padre Kiliano, de 1995, por ocasião de sua morte,
na Praça Monsenhor Tabosa, construída em 1985.

     Muitas outras coisas vimos, questionamos e aprendemos. No entanto, lamentei o fato de que a igreja matriz mesmo sendo tombada ainda passa por reformas, o que não deveria ocorrer, e sim apenas restaurações e manutenção. Mas infelizmente essa é a visão errada que a maioria das pessoas têm: achar que tudo que é novo e moderno é bonito, é o melhor... Não se dando o devido valor para aquilo que é antigo, que está desaparecendo e que é cheio de história! Desconhecida história!



Gostou da trilha?
Participe conosco!

Em breve agendaremos trilhas da memória e trilhas ecológicas no Ecomuseu de Pacoti para estudantes, visitantes e toda a comunidade!